Rimbaud no Dubai:
A vida é um lugar perigoso
de Armando Nascimento Rosa
Sinopse
'Rimbaud no Dubai', é uma fábula contemporânea sacrificial e vingadora, um thriller de teatro que nos prende desde a primeira cena a um enredo feito de monstruosidades reconhecíveis, que o subtítulo explicita: A vida é um lugar perigoso. Já o título da peça é uma pista enganosa, pois Rimbaud não é personagem da acção, somente alguém que escreve poemas enquanto exerce ofício criminoso numa rede de tráfico de órgãos humanos. Um retrato de barbárie, tão literal quanto metafórica, dirigido à distopia global em que vivemos, no chamado capitalismo tardio.
Alphonse, Ulrike, Helena, O Patrão, e Alminah: cinco personagens que nos conduzem a nenhures no deserto norte-africano, com a convicção de que o teatro pode expor-nos perante histórias cáusticas com adrenalina e pensamento, horror irónico e humor sombrio, acerca da humana desumanidade.

Ficha Artística e Técnica
Encenação PAULO ALVES PEREIRA
Assistência de encenação ELSA PINHO
Cenografia e Figurinos JOÃO SOTERO
Com ANDRÉA FERNANDES | APOLLO NEIVA | DANILSA GONÇALVES | DUARTE BANZA
Desenho de luz DUARTE BANZA
Selecção musical APOLLO NEIVA
Imagem original do espectáculo EDUARDA PINHO
Design de comunicação INÊS PALMA
Fotografia LUÍS CUTILEIRO
Registo e edição de vídeo PAULO SANTOS
Construção CAMPANIÇO & IRMÃOS, LDA. | FRANCISCO CAMBIM
Operação de luz, som e vídeo ANABELA MONTEIRO
Direcção de produção FIGUEIRA CID
Secretariado e assistência de produção VANDA RUFO
Agradecimentos ANTÓNIO REBOCHO | CARLOS ALVES | VASCO RAMALHO e os alunos da Licenciatura em Música da Universidade de Évora DIOGO MARTINS | JOÃO FERREIRA | IVO SOUSA | LEONARDO SIMÕES
Classificação: M/16
Duração: 80'
O Cidadão a Retalho
Uma sala de operações, com o paciente deitado na mesa cirúrgica. Com voz firme, as solicitações do cirurgião sucedem-se com a devida precisão: bisturis para as incisões, tesouras e facas cirúrgicas para cortar os tecidos, Ronguers cirúrgicos para a extração de pequenos fragmentos ósseos e depois seguem-se as pinças anatómicas, as hemostáticas como a Kelly e também as específicas como as de ponta fina, ponta angular e as de serrilhado forte. para agarrar e manipular estruturas. São pedidos igualmente afastadores para que as bordas de uma incisão permaneçam abertas, proporcionando ao cirurgião o seu campo de visão. Porém, grampeadores cirúrgicos para suturar os tecidos, ou o sistema para fornecer oxigénio e gases anestésicos ao paciente não são necessários. Aqui não se trata de reanimar seja quem for, mas sim, de esquartejar o “dador” para o vender a retalho.
Para tratar um assunto tão grave como o sujet central abordado nesta peça, parece-me que a valorização da subjetividade, acompanhada pela expressão de emoções intensas através da distorção da realidade, seja a forma mais adequada. Deste modo, numa estética expressionista (a qual desde há muitos anos defendo), como contraponto a um naturalismo piegas e barato, cujo principal objetivo é a alienação das massas, pretendo discutir a miséria a que chegámos enquanto humanidade. Este espetáculo é também a estreia mundial da peça de Armando Nascimento Rosa laureada em 2020 com o Prémio Novas Dramaturgias.
De facto, este tipo de ações criminosas faz cada vez mais vítimas. A carência mundial de órgãos legalmente disponíveis para transplante, tem dado origem a que inúmeras redes criminosas lucrem com a sua remoção e comércio, muitas vezes colocando em risco tanto os “dadores” como os recetores. Não obstante a criação da Convenção de Santiago de Compostela, ou seja, a convenção contra o tráfico de órgãos humanos, a qual entrou em vigor em 2018, e apesar da perseguição movida aos transgressores, defendendo os direitos das vítimas, o tráfico ilegal de órgãos está a aumentar. A sede insaciável por ‘ter mais e mais’ passou a povoar os horizontes das multidões.
Estimuladas pela ânsia do lucro fácil multiplicam-se as ações criminosas a todos os níveis: desde jogos parlamentares a tráfico de influências com a utilização de empresas ilegais nas mãos de altos dirigentes, desde abusos de poder a vários níveis civis e religiosos à destruição do tecido social, desde tráfico de drogas a trafico humano, desde centenas de vítimas no Mediterrâneo à destruição de Gaza, desde leis de migração pseudo-reguladoras reveladoras da idiotia e maldade de quem as ditou a demagógicas proibições de peças de vestuário, desde o surgimento de novos imperadores déspotas a tráfico de órgãos humanos, tudo passou a ter como bitola o enriquecimento rápido, mesmo que à custa de outrem. Os exemplos dados pelos próprios dirigentes da sociedade, as campanhas de ódio e desinformação de certos políticos, com o beneplácito de outros, o desprezo pelo Ser Humano, a ação antipedagógica concertada de certos mass media, têm contribuído para um aviltamento dos valores humanistas e para que se passe a olhar para o Outro como mercadoria.
Paulo Alves Pereira




.png)